Reflexões

Ângela  Amaral

 

 

É estranho como a dor pode ser cruel

quando se pára para pensar

e analisar o que já se fez.

A maturidade incomoda porque nos torna exigentes...

Aterroriza porque estabelece limitações e as mostra...

Transforma a vida em pequenos diagnósticos

porque já se conhece a estrada...

E acaba nos tornando símbolos de nós mesmos.

A maturidade deveria correr com a tranqüilidade

das outras idades,

deveria conservar o viço da esperança

de sempre poder fazer,

de se poder deixar pra depois,

porque sempre haverá tempo.

Mas ela não é assim....

Ela amola, questiona, cobra,

é cruel, é finita, é terminal...

E cá estou eu,

olhando para um espelho que não pedi pra ver,

percebendo nuances tristes de uma aquarela

que não raro escolhi as cores...

Sou pura dualidade

e assim fui por todos os tempos da minha vida.

Me obriguei a vestir capas

e máscaras para burlar o mundo

e não aceitar a mediocridade

do certo e do errado convencionais.

Vesti sempre as máscaras necessárias

e soube usá-las muito bem....

Ah! Como soube!

Soube tanto que acabei conseguindo criar

e conviver com dois mundos distintos e meus.

O mundo que poderia ser mostrado

e aquele que não deveria ser visto

a não ser por mim mesma.

Sempre preferi o segundo,

aquele que era só meu,

o verdadeiro e de onde tirava suporte

e força para montar as peças do segundo.

E, olhando agora para mim mesma,

não consigo situar em qual tempo

os dois se separaram tanto!

E o que é mais ainda interessante

é que o segundo mundo

se ramificou em outros dois mundos distintos.

Uma parte dele completa de sucesso e realizações.

A escolha perfeita da carreira profissional,

a realização bonita da maternidade,

a felicidade de saber eleger e amar os amigos,

a postura digna e correta diante das pessoas

e das coisas.

Essa parte do mundo visível de mim realiza

completamente o mundo invisível,

nutre-o e o enche de orgulho.

Não quero mais esconder-me do sol,

não me admito mais pela metade....

Mas o que existe guardado só é belo aos meus olhos

e aos olhos de muito poucos a quem ousei mostrar.

Olho para o mundo de fora

e vejo a hipocrisia dominando tudo...

O discurso das imagens ideais e inexistentes,

que continua sendo respeitado e repetido dia a pós dia,

criando cada vez mais pessoas frustradas e infelizes.

Por que somos assim?

Por que dificultamos tanto o caminho de nós mesmos?

Por que somos tão impertinentes com o outro,

fingindo aceitar sua individualidade

e corrompendo-o para que finja pensar como nós mesmos,

ou como o "mestre" manda que pense?

Por que nunca sabemos lidar com a verdade pura

e simples de cada um, sem julgá-la

ou maculá-la com nossa maldade?

E a única coisa que temos conseguido

é sermos cada vez mais vazios,

cada vez mais sozinhos.

E é bem assim que o espelho mostra o meu reflexo:

marginal e sem par

para um mergulho que valha à pena.