CANÇÃO DE ADEUS
Eduardo Baqueiro

 

Acordou preocupado com o futuro. Olhou a mulher de cabelos brancos, com algumas rugas que o tempo imprimiu. Ajoelhou e pediu a Deus, mais uma vez, proteção... Fez o café e levou para a mulher que ainda dormia.

Acordou-a com um beijo como há muito não fazia... Acordou a filha que estava atrasada para a escola. Abraçou as duas e falou, sem receio, do amor que sentia por ambas.
E foi trabalhar.

Parecia que o dia seria
 
igual aos outros. Entrou no ônibus com destino à cidade...Achou uma cadeira vazia, sentou-se tranqüilo. Olhou para o céu e lembrou-se que há muito não o fazia. Lembrou-se da infância, da escola, da primeira namorada, uma lágrima correu pela face.

Fechou os olhos e reviu toda sua vida. Sentiu saudades dos pais que há muito se foram. Questionou consigo mesmo sobre o destino do homem,
os porquês da vida, tornou-se filósofo por um instante. Dormiu sereno e feliz e reviu os amigos que a morte levou. Lá estavam todos, seu pai, sua mãe, os amigos que se perderam, até os avós que não conheceu.

Sua
 mãe se aproximou e estendeu-lhe as mãos; agora eu não posso minha mãe, preciso trabalhar, tenho uma filha e uma mulher precisando de mim, afirmou confiante. Seu pai também se aproximou e estendeu-lhe a mão, depois vieram os amigos. Um grito ecoou do peito, mas já era tarde! Uma bala perdida, de uma arma qualquer o atingira .

A morte chegou, sem aviso, sem consulta, sem pena.... apenas chegou e levou seus sonhos, deixando a revolta e a certeza de que nada é como desejamos. Agora não passa de uma estatística, de uma família deficiente, esperando pelo tempo, para que as feridas cicatrizem e a vida possa continuar.