Branco ou preto

Eduardo Baqueiro



Nasci pobre e feio...

Não me considero gente...

Não tenho amor próprio...

A raiva e a revolta correm em meu sangue!

Não gosto de gente...

Gosto de bicho...

Sabe por quê?

Porque eles não vêem minha face,

Eles olham minha alma

E neles eu sinto sinceridade!

Sinto amor e carinho

Não me sinto um filho de Deus...

Não, eu não sou nada!

O espelho se envergonha de minha imagem,

Eu me revolto e não encontro saída,

Meu desespero chega às raias da loucura...

Não pelo fato de ser feio...

Tampouco de ser pobre...

Mas por ser abandonado!

Esta sociedade hipócrita que bajula

aquele que tem algum recurso...

Que endeusa a beleza...

Esta mesma sociedade me enoja...

Eu me revolto pelo simples fato

de não ser respeitado

por não ter nada a oferecer,

além de meu trabalho.

Sou honesto sim, trabalhador...

E isto não significa nada!

Enquanto bandido no morro é paparicado,

Eu não tenho valor nenhum...

Se eu morrer será menos um a enfrentar

as filas da miséria...

Meu Deus, será que tu existes?

Ou é apenas mais uma invenção do homem

para explicar aquilo que ele desconhece?

Não sei rezar, não aprendi...

Mesmo sem acreditar,

gostaria de pedir...

Quem sabe assim meu martírio termine?

Que fazer desta vida miserável?

Que caminho tomar?

Quem me socorrerá?

Sinto-me perdido e desamparado...

Um grito de socorro ecoa em meu peito

E ninguém escuta!

Quero nada não, além deste pouco espaço,

Um pouco de paz para meu corpo cansado

E, se possível, um pouco de calor humano

Que possa abrandar esta minha dor

de não ser...

Nada mais, nada mais...